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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Sentir-se amado 
Martha Medeiros 
(JUN 2001)


O cara diz que te ama então tá. Ele te ama. 
Sua mulher diz que te ama então assunto encerrado. 
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se. 

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?

Pactos, Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho."

Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai,é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d’ água. “Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato”. 

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. 
Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. 
Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. 
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. 
Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta. 

Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.


Fonte: Livro "Paixão Crônica" de Martha Medeiros

quarta-feira, 29 de abril de 2015


IRREVERSÍVEL
Marla de Queiroz

Quando terminei de falar, senti foi a dentada da tristeza em meu peito. 
Eu fui andando, andando, quase olhei pra trás e pedi que desconsiderasse aquilo tudo. Mas não dava pra desmanchar aquele ponto final. 
Não se remove um "adeus" com um "esqueça tudo que eu disse". É que eu pensava que nem ia doer. (Nem deixei que ele me tocasse, eu não tinha tempo pra arder).E foi com meu coração disparado que apressei o passo e ganhei estrada. 
Eu respirava fundo chamando a tranqüilidade de volta. Mas ela não veio.
Enquanto me afastava, pensei que eu tava indo embora de tudo nele. E sei que fiquei como um ranço, algo que lateja até que se perdoe. Era ele aprisionado na lembrança do que eu havia sido. 
Só tive paz mesmo, quando o seu coração desmanchou o hematoma da saudade num choro compulsivo, no colo do melhor amigo. Porque nem calma eu tinha pra ajudar.
A carne sempre fraca pra afagar, acabava indo mais longe e tudo voltava ao antigamente. Aí eu tive que ficar quieta no meu canto, toda lacerada pela falta. Foi um período solitário em que vivi o luto necessário.
Ele nem desconfiou que eu também estava triste, talvez se sentisse melhor se soubesse. Mas eu tinha que fazer valer minha palavra, demorei muito tempo tomando coragem. Demorei muito tempo desparafusando aquela gaiola e, depois, reaprendendo a voar.

Tive ímpetos de escrever uma carta falando das qualidades dele, de tudo que havia me feito crescer. Mas quando fui escrever só consegui dizer: desculpe, não se pode negociar com a paixão. 
Porque eu também não entendo às vezes esses caminhos que a vida tece. E nós que morávamos um no outro, ficamos sem casa.
Perdoe a falta de abrigo, é que agora eu moro no caminho.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015


 GRITO MUDO

"Como diz Drummond “Perdi o bonde e a esperança./ Volto pálida para casa”. Mas não posso deixar de bradar o meu desespero. Há algo de estranho entre os homens. Estarei sozinha na explosão interior? Creio que não.

O mundo se torna cada vez mais superficial, alheio aos apelos humanitários: valores inexistem, sentimentos se destroçam, honestidade se discute, a ética se adjetiva, cortesias desaparecem, o imediatismo impera... Olhar para o lado e avistar o outro é coisa do passado; importa a celeridade do ver e não enxergar.

Tenho medo da mentalidade vigente e recuo diante da multidão embotada por princípios distorcidos.

O ato de pensar se afasta da humanidade. Prevalece a ganância por uma escalada ao poder. A visão materialista se apossa das pessoas e “ter” corresponde à glória do pódio. “Ter” e não “Ser”. A patologia social embrenha-se nos cantos e recantos mais longínquos; pior, aqueles que se recusam a participar do redemoinho da insensatez sofrem a exclusão dos ingênuos. A mediocridade tem parentesco próximo à soberba, ambas andam de mãos dadas, a alfinetar a jactância com malditas persuasões. Ora, se nada é duradouro, por que perder tempo com ponderações mais profundas? Ludibriar faz parte desse palco histriônico: luzes, coreografias, matizes berrantes auxiliam a anestesia social; embriagada pelo individualismo e pela insensata altivez, a humanidade caminha.

O capitalismo avança com suas garras sedutoras. E o mundo gira; mas tem girado em torno de um mesmo tema: a banalização. Com exceções, evidentemente. A juventude se enreda em altos decibéis, e cada acorde estrondoso consigna o atordoamento de um grupo devotado à mediocridade. Sair de casa é enfrentar o bulício de vozes, de carros que buzinam, vitimados pelo caos do trânsito; de restaurantes inebriados por músicas estridentes; de rádios ligados em volumes inaceitáveis; de vitrines reluzentes, a fascinar olhos desatentos... O que se passa?

O Recife parece ter perdido o seu ar heráldico para se deixar emaranhar numa rede de insignificâncias. A elegância, a educação, a discrição, a gentileza, a valorização do erudito, sem esquecer do popular, a magnanimidade da sabedoria... são lembranças em extinção. E, no entanto, temos uma tradição digna de reverências. Mas, não. Pichar muros, ignorar ou ultrajar monumentos, desconsiderar os mais velhos, abandonar rituais, desprezar o patrimônio moral e material equivalem a ser moderno, a estar na ordem do dia, a endossar a fileira dos que aplaudem a decadência da cultura. Oswald Spengler já há muito anunciava tal abismo. Não, não é possível cruzar os braços; as coisas não vão bem. Enquanto a ordem familiar e social não se conscientizar da sua própria ruína, nada poderá ser feito.

Sei que sou considerada antiga, apegada a valores tradicionais, vencida por sonhos quase delirantes; mesmo assim, uso a palavra como único meio de alerta, palavra que também se encontra enfraquecida, anêmica, quase agônica. Tenho certeza, entretanto, que ainda é hora de repetir Chesterton: “Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo”.

Fátima Quintas é presidente da Academia Pernambucana de Letras.

Artigo publicado no Caderno Opinião do Jornal do Comercio, dia 18 de junho de 2014.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Crônica

A melhor vida possível
Martha Medeiros  


Quanto mais converso por aí, mais percebo que é inútil acreditar em verdades absolutas e fórmulas ideais de convivência. Cada pessoa tem familiares que influenciaram suas escolhas, medos herdados e medos adquiridos, sonhos altos demais ou mesmo nenhum, e um número incalculável de perguntas sem respostas, de desejos embaraçosos, de mágoas vitalícias. Quem vai decretar para mim o que é melhor para mim? E quem vai dizer o que é melhor para você? Com que topete? 

A melhor vida não é aquela que atende os mandamentos universais, as ordens celestes e os clichês eternizados, mas a que se tornou possível, a que você vem construindo a despeito de todas as suas dúvidas. 

A melhor vida seria a da Gisele Bündchen, pensa a menina feia. A melhor vida seria a da Dilma, pensa a vereadora de uma cidadezinha do interior. Enquanto isso, vivem a vida possível, sem perceber o quanto deveriam ser gratas por não precisarem arcar com consequências que desconhecem. 

A melhor vida para mim é bem diferente da melhor vida para você. Reúna o planeta inteiro e não se encontrará duas pessoas que planejem possuir a mesma vida, porque uns não querem ter horário para nada, outros se envaidecem de ter suas atitudes comentadas por estranhos, há os que se paralisam à primeira frustração, os que estão sempre inventando novos desafios, e a vida possível de cada um torna-se impossível para os demais, o que não deixa de ser uma piada termos que conviver intimamente uns com os outros apesar desse tabuleiro inesgotável de escolhas e destinos. 

Se eu almejar uma vida ideal, terei que me basear na vida dos outros, pois o ideal é fruto de uma racionalização coletiva e consagrada, enquanto que se eu me contentar com uma vida possível, volto a assumir algum controle sobre os royalties das minhas decisões. 

O que não impede que ela seja ótima, a mais adequada para o fôlego que tenho, a mais realizável dentro de minhas ambições, a menos sofrida, já que regulada pelo autoconhecimento que adquiri até aqui. Tenho como manejar uma vida possível de um jeito que jamais teria de manejar uma vida perfeita, até porque vida perfeita não é deste mundo, e o sobrenatural é matéria que não domino. 

A melhor vida não é a focada em suposições, fantasias, esperas, surpresas e demais previsões que raramente se confirmam. A melhor vida não é aquela que é cumprida feito um pagamento de dívida, como um acerto de contas com nossos antigos anseios juvenis. 

A melhor vida não é a que desenhamos quando criança na folha do caderno, a casinha de venezianas abertas, a fumaça saindo pela chaminé e os girassóis protegidos por uma cerquinha branca, e tudo o que isso sugere de proteção e vizinhança com os desejos comuns a todos. A melhor vida possível é aquela que você ainda vem desenhando, mesmo já com algumas pontas de lápis quebradas.

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sábado, 4 de outubro de 2014

É preciso saber desligar
Fernanda Mello


Esqueça o trânsito caótico, a urucubaca política, a lista de compras para o natal, o tal balancete no final do ano. Deixe de lado a cobrança interna, a dívida externa, a tão eterna dúvida. 

Viver é assim. Não há como negar. Para ficar ligado é preciso saber desligar. Fácil? Nem tanto. Descobrir qual é o seu tempo é tarefa nobre: exige um grande conhecimento sobre si mesmo. 

Portanto, esqueça o relógio. Seu tempo está dentro de você. Chega de viver com a ansiedade no colo e o celular na mão. Não deixe a agenda ocupar - sem querer - o lugar do coração. Respeite sua hora. Desacelere. TURN OFF.
 
Mais do que correr, é preciso saber parar. Não adianta viver no piloto-automático e deixar de sorrir. Nem tirar folga e levar uma enorme culpa dentro da mala. O mundo lá fora exige produtividade e imediatismo. Aqui dentro, corpo e alma pedem menos, muito menos. Como fazer, então, para conciliar tempos tão diferentes? A resposta não está em livros. Mas dentro de cada um. Quer tentar? Respire fundo. Desencane. Perca seu tempo com você!

É uma responsabilidade enorme desconectar-se, eu sei. Mas vida ao vivo é pra quem tem coragem. Coragem de arriscar. Cuidado em saber a hora certa de parar. Difícil? Pode ser. É um exercício diário que exige confiança e um amor incondicional por tudo o que somos e acreditamos. Uma aceitação suave dos próprios defeitos, um rir de si mesmo, um desaprender contínuo, um aprender sem fim sobre o que queremos da vida. Não importa se tudo parecer errado e o mundo virar a cara para você. Esqueça. Se esqueça. Hora de se perdoar. RENASÇA. 

Eu sei pouca coisa da vida, mas uma frase eu sigo à risca: é preciso respeitar o próprio tempo. E eu respeito! 

Acredito no que diz o silêncio na hora em que a mente cala. E meu silêncio - que não é mudo e também escreve - dita com voz desafiante: confie em si mesma. Quebre a rigidez. Ouse. Brinque. Viva o final de ano com mais leveza. E - por favor - desligue-se. Só assim você vai transformar vida em letra e letra em vida. E ter coragem e fôlego pra ser VOCÊ, no momento em que o mundo te atropelar sem licença e disser: CHEGOU A HORA!


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Crônica


O Contrário do Amor 
Martha Medeiros


O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

terça-feira, 26 de agosto de 2014


A gente tem que ser de verdade
Clarissa Correa


Não gosto de quem se esconde atrás de uma palavra, um escudo ou base para o rosto. Não tolero quem diz uma coisa e faz outra, quem promete e nunca cumpre, quem diz que ama e nada sente. Não suporto quem tenta aparecer a qualquer custo, quem acha que o dinheiro compra tudo, quem esquece do que mais importa.

Gosto de quem mostra o rosto suado, as mãos sujas, o verbo esparramado, os pés descalços. Gosto de quem não tem medo do não, de quem perde o controle, de quem esquece a razão. Gosto de quem se molha na chuva, suja a bochecha de melancia, deita na grama pra olhar o céu. Gosto de quem não esconde a emoção, de quem não se importa em secar a lágrima, de quem perde a hora vendo a paisagem.

Não gosto de quem fala pelas costas, tenta dar o gole, passar a perna ou esconder o jogo. Não gosto de quem trai a si mesmo e o outro, distribui promessas rasgadas, espalha mentiras. Não gosto de quem força amizade, vive de aparências ou reage com grosseria.

Gosto de quem olha com doçura, nunca perde o encanto, esquece as desavenças e perdoa o que passou. Gosto de quem se arrepia com uma música, sente uma lágrima rolar com um filme e se alegria com uma lambida de cachorro. Gosto de quem sorri ao ver uma criança, de quem mantém seu lado puro, de quem entende que a vida é melhor quando a gente observa o que acontece com olhos inocentes.

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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Querer é uma coisa, precisar é outra
 
 
Por que a pressa em satisfazer os pedidos dos filhos? Encaramos seus desejos como se fossem necessidades
 
Você já reparou, caro leitor, na confusão que temos feito entre dois conceitos que são tão diferentes, mas que estamos usando, principalmente na linguagem coloquial, como se fossem sinônimos?
 
Eu me refiro aos verbos “querer” e “precisar”. Vamos, então, retomar o significado dessas duas palavras, para começar.
 
Precisar diz respeito a uma necessidade, a uma carência que exige satisfação. Por exemplo: temos fome e sede, por isso precisamos de líquido e de alimento para a satisfação dessas necessidades.
 
E, como dá para perceber, a necessidade sempre tem um alvo certo. Quando nós temos sede precisamos de água e quando temos fome precisamos de comida.
 
“Bebida é água!/Comida é pasto!/Você tem sede de quê?/Você tem fome de quê?” são os versos iniciais de uma música interpretada pelos Titãs que trata dessa questão.
 
E o querer? O querer diz respeito a uma intenção, a uma aspiração. O querer é algo que nos move, mas não é uma necessidade. Um querer pode encontrar satisfação em diversos alvos diferentes.
A letra da música referida acima continua assim: “A gente não quer só comida/A gente quer comida/Diversão e arte”…
 
Precisamos e queremos, portanto. Precisar é algo muito diferente de querer.
É um problema tratar essas duas palavras de forma indiferenciada.
 
Recentemente, vi uma jovem mulher conversar com sua amiga e manifestar que precisava urgentemente de um determinado aparelho celular. Ela tinha um em sua mão, moderno, mas o problema é que não era aquele a que ela fazia menção. Um querer é transformado em um precisar e, certamente, essa mulher iria tratá-lo como tal.
 
O problema fica muito maior quando transferimos esse estilo de falar e de pensar para as crianças.
Você pode observar: muitas -mas muitas mesmo- crianças já trocam o verbo querer pelo precisar.
Crianças precisam de festa de aniversário em determinado local, precisam de um certo jogo de videogame, precisam de um tipo especial de comida etc. E muitos adultos tratam esses quereres realmente como necessidades.
 
Não será também por isso que tantos pais fazem o maior sacrifício para dar algo ao filho ou até mesmo permitem algo a contragosto só porque ele declarou insistentemente que “precisa” daquilo?
Diante dos desejos das crianças temos nos comportado, muitas vezes, como se elas estivessem manifestando necessidades reais.
 
Afinal, por que ficamos tão afobados e tão apressados em satisfazer o que elas pedem? Qualquer querer pode não ser satisfeito sem problema algum.
 
Quem quer pode esperar, pode trocar o objeto do querer para que se torne mais acessível e pode, inclusive, perceber que terá de abdicar desse querer.
Já quem precisa… Quem precisa pode esperar por pouco tempo, não pode trocar o objeto da necessidade e tampouco pode abdicar dele.
 
Claro que não podemos nos esquecer de que essa confusão é muito bem alimentada pelo consumismo. Mas será que é bom nos submetermos a isso de forma acrítica?
Certamente não é bom. Podemos querer à vontade, inclusive o que o mercado de consumo nos sugere.
A jovem mulher pode querer o aparelho de telefone que é a novidade do momento, a criança pode querer hambúrguer e batata frita bem na hora do jantar.
Mas todos precisam saber com clareza que querer não é precisar. E querer, muitas vezes, também não é poder.
Texto:  Rosely Sayão (Folha de S.Paulo)
 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Crônica


MERECIMENTO
Marla de Queiroz


Eu desejo que você consiga perceber a sua força, por causa e apesar de. Que saiba que é grandioso demais para achar que não é, mas que, às vezes, têm limitações que precisam ser trabalhadas. Eu desejo que você, antes de me contar seus defeitos, que fale para se escutar sobre as suas qualidades, as essenciais, porque o material não te faz mais bonito ou menos interessante, seu coração é a sua nobreza.

Eu desejo que no mundo haja mais pessoas com a sua generosidade, mas que sua percepção disso seja convertida para o seu Bem também. Desejo que você não apenas ajude, mas aprenda a pedir ajuda: se humildando na sua capacidade de dar e se permitindo receber o que é justo.

Desejo que, no auge do seu cansaço, você não fuja, que simplesmente consiga chorar por um profundo respeito a si mesmo. E que deixe que o Universo te afague, que a Vida te acaricie, que um Poder Superior te ouça e dê o colo que você precisa. Eu desejo que você possa dormir quando sentir sono. E que possa acordar com a boa notícia que espera.

Porque você merece comemorar mais uma vitória. Você merece sorrir com seu coração.

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Fonte: https://suspirosedesatinos.wordpress.com

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Crônica

O MEDO 
Yolande Caffé 


Por que temos medo de abrir as gavetas da vida e vasculhar os nossos arquivos? 
É pra não nos depararmos com a nossa realidade, para não termos que lidar com as nossas fraquezas e verdades.
É pra fugir do nosso espelho interior, pois ele reflete aquilo que a nossa consciência conhece. E isso dá um medo!! 

Pesquisar o desconhecido é algo que poucos se arriscam e se propõem a fazer, pois sabem que o universo interior é cheio de labirintos, muitas vezes, escuros e frios.
 
O medo e a coragem andam juntos, mas por caminhos paralelos, sendo apoiados pela habilidade e criatividade de quem está no comando. 
Sabemos que as grandes descobertas e as grandes batalhas, foram realizadas em momentos de grande coragem, onde o medo era apenas a desculpa para o fracasso.

Por medo de mostrar ao outro o que somos, calamos a voz, escondemos nossos sentimentos e por isso, muitas vezes, deixamos de viver maravilhosos encontros, grandes emoções, momentos especiais. 

Para viver intensamente, é necessário ter a coragem de enfrentar os nossos medos e deixar que a vida seja um palco iluminado, onde seja possível construir a nossa história sem se preocupar como ela será interpretada por personagens reais.

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segunda-feira, 28 de abril de 2014

O que o amor tirou de mim


O que me interessa no amor, não é apenas o que ele me dá, mas principalmente, o que ele tira de mim: a carência, a ilusão de autossuficiência, a solidão maciça, a boemia exacerbada para suprir vazios. 

Ele me tira essa disponibilidade eterna para qualquer um, para qualquer coisa, a qualquer hora. 
Ele apazigua o meu peito com uma lista breve de prós e contras. Mas me dá escolhas. 
Eu me percebo transformada pelo que o amor tirou de mim por precisar de espaço amplo e bem cuidado para se instalar. 
O amor tira de mim a armadura, pois não consigo controlar a vulnerabilidade que vem com ele; tira também a intransigência. 
O amor me ensina a negociar os prazos, a superar etapas, a confiar nos fatos. 
O amor tira de mim a vontade de desistir com facilidade, de ir embora antes de sentir vontade, de abandonar sem saber por quê. E é por isso que o amor me assombra tanto quanto delicia.
Porque não posso virar as costas pra uma mania quando ela vem de uma pessoa inteira. 
Porque eu não posso fingir que quero estar sozinha quando o meu ser transborda companhia. 
O amor me tira coisas que eu não gosto, coisas que eu talvez gostasse, mas me dá em dobro o que nunca tive: um namoramento por ele mesmo. 
O amor me tira aquilo que não serve mais e que me compunha antes. 
O amor tirou de mim tudo que era falta.
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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Opinião



Sabemos como é precária a situação da saúde, educação, segurança, emprego, saneamento básico, estradas, etc... no nosso País. A lista é enorme e essa situação precisa mudar JÁ, ou melhor, a urgência é "pra ontem" porque já estamos cansados de pagar tantos impostos e não ver o uso desse dinheiro em benefício do povo brasileiro. Ao contrário! O que mais existe são desvios para benefício de poucos.
Temos todo direito de protestar, cobrar das autoridades, fiscalizar, denunciar, ser solidário para amenizar a dor dos que são menos afortunados do que nós, enfim... fazer tudo que for possível para acabar/minimizar essa deplorável situação. 
Ultimamente tenho visto/lido muito a respeito de protestos que estão fazendo em tantos cantos do nosso País, contra a Copa do Mundo que acontecerá daqui a alguns dias, onde uma das principais bandeiras é a alegação de que todo dinheiro gasto para a sua realização poderia ter sido utilizado para resolver muitos dos nossos problemas, como os citados acima.
Concordo que, quando se quer fazer alguma coisa, arranjam dinheiro e não medem gastos, como o que aconteceu com a construção dos estádios, por exemplo, e se fosse mesmo encarado como prioridade a resolução dos nossos problemas, esses recursos seriam a solução de muitos deles. 
O que discordo é, a esta altura dos acontecimentos, quando os nossos visitantes estão quase chegando em "nossa casa",  se fazer uma campanha para boicotar, bagunçar, não participar e até não torcer para o Brasil ser campeão. Este não é mais o momento (é o que eu acho). 
Agora precisamos estar de "braços abertos" para recebê-los e mostrar para o mundo que, apesar de tudo, somos um povo civilizado, hospitaleiro, alegre e que também sabe e é capaz de fazer eventos de grande porte.
Agora que os investimentos já foram feitos e os recursos já foram gastos, o nosso desejo deve ser que venham muitos torcedores, de todos os cantos do mundo, com muita disposição pra gastar e deixar "muitas divisas"  no nosso País. E claro, que o Brasil seja Hexa Campeão!
Depois da Copa do Mundo vem a eleição, onde iremos escolher Presidente, Governadores, Senadores e Deputados Federais e Estaduais e, é através do nosso VOTO que podemos fazer o nosso melhor protesto escolhendo bem os nossos candidatos. Vamos eleger aqueles que estão sempre juntos do povo, que trabalham para o bem comum, que apresentam propostas e as executam. Vamos ler sobre a sua história de vida, sua idoneidade e dar um voto consciente. Depois vamos acompanhar o seu mandato e cobrar o cumprimento das sua promessas de campanha e as mudanças que queremos e precisamos
. Somente dessa forma, com o envolvimento de todos objetivando o bem comum, especialmente dos que mais precisam de oportunidades para viver com dignidade e respeito, é que teremos o Brasil que sonhamos e merecemos.

Salvador, 25 de Abril de 2014
Cristina Caffé

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Crônica

QUEM SABE ISSO É AMOR


Acho que posso dizer que é amor, sim . Mesmo que a gente tenha se perdido para que eu pudesse encontrar a mim mesma . Mesmo que a gente tenha se perdido para que você pudesse buscar a si mesmo .

É amor porque eu te guardo na lembrança bonita do meu crescimento, da descoberta do que era a co-dependência ou da fusão que subtrai . É amor, porque cantamos juntos, dançamos juntos, choramos juntos, fizemos amor intensamente, trocamos profundamente as angústias da alma, torcemos um pelo outro, nos ajudamos, viajamos juntos, gargalhamos desarvoradamente, dormimos juntos no melhor abraço um do outro, descobrimos novas músicas, sinônimos, livros, enlouquecemos lindamente, brigamos muito, fizemos as pazes várias vezes e fomos embora um do outro quando nada mais era poesia .

Não foi triste, mas doeu profundamente . Uma dor resignada porque eu podia ver com clareza que já não nos acrescentávamos nada . E aprendi a trabalhar o desapego e o perdão . E hoje, quando vejo você sorrir, eu sinto que estamos bem e que fizemos a coisa certa . E o amor só pode ser isto : Querer que o Outro encontre a felicidade a qualquer custo, mesmo que isso exclua você da plenitude dele . Mesmo que isto exclua o Outro da sua plenitude .

P.S : Sinto um amor incondicional por ele . Vai ser sempre amor, mesmo que as flores murchem e o tempo fique garoando . Vai ser sempre amor, mesmo que os ponteiros corram depressa . Será sempre amor mesmo que nossos corações comecem a dançar valsa por não conseguir mais dançar samba ou frevo . Será sempre amor mesmo que exista alguns impasses, mesmo que nossos sonhos sejam loucos e alguns planos não se concretizem . Será sempre amor, não importa quanto tempo passe . Amor de querer ver a pessoa bem e feliz, amor de querer proteger, amor de se preocupar . Evoluímos para esse amor que nem sei explicar . Ainda que ele case, more na Bósnia, são quase 7 anos . Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre . Era tanto amor que não deixou de ser . Certas coisas são incondicionais .

Marla de Queiroz

Fonte: http://suspirosedesatinos.wordpress.com/

quarta-feira, 12 de março de 2014

Crônica


Quando o amor acaba e o outro vai embora. O que fazer com a dor?
Rosana Braga


Uma dor que parece insuportável, interminável, inexplicável... Uma dor que insiste em se fazer notar, que traz ao pensamento, minuto a minuto, a pessoa amada, o amor acabado, a relação falida... O que fazer? Como superar essa situação que parece definitiva, que parece insuperável?

Vejo muitas e muitas pessoas sofrendo e se destruindo por um amor desgastado, desenganado e, muitas vezes, morto! Pessoas que não se conformam com o final de seu romance, que seriam capazes de arrastar por anos e anos um relacionamento sem confiança, sem reciprocidade, sem companheirismo, coagido pelas discussões, críticas e falta de compreensão... Simplesmente para não assumirem o fim! 

Por incrível que pareça, por mais difícil que seja admitir que o brilho se apagou, que a paixão esfriou e que as expectativas cansaram de se frustrar, é muito melhor abrir mão de uma relação morta do que se autocondenar a viver num mundo que, na verdade, não existe mais!

Existem muitas razões para que um amor morra: falta de diálogo, medo de se entregar, desconfianças, ciúme excessivo, egoísmo exagerado, diferenças morais, religiosas ou até uma terceira pessoa - que já existia ou chegou depois... Mas a verdade é que nunca há somente um motivo.

Inconscientemente ou não, propositadamente ou não, o fato é que há sempre uma lição a ser aprendida, mesmo por aquele que está sofrendo, mesmo por aquele que não quer abrir mão do amor, independentemente de sua condição.
Então, a pergunta seria: por que manter uma relação que já não traz felicidade, que transforma cada dia numa batalha, que faz com que o outro se sinta pequeno, constrangido, decepcionado, angustiado e até sem vontade de viver?

Medo de começar de novo, sozinho, sem a muleta que lhe colocava no lugar de vítima? Medo de encarar a família, a sociedade e a sua própria consciência? Medo da solidão, da sensação de derrota, do vazio que inunda o coração? Medo do que mais? O que pode ser mais doloroso do que um amor pisoteado, abandonado, esquecido, destruído? O que pode doer mais do que a mentira, a indiferença, a ausência de corpo presente, a crítica constante, o desafeto, a traição (em todos os sentidos)?

Então, se você sente dentro de si um vazio que perturba, que dói, que faz com que tudo perca a graça e que tira a sua alegria de viver, eu sugiro: pare de tentar preencher esse vazio com qualquer coisa, com qualquer um, com um amor que já não tem mais condições de preencher nada... Olhe para esse cantinho frio e triste que existe dentro de você e convença-se de que para preenche-lo você precisa torná-lo atraente e saudável!

Aprenda com a dor. Cresça com o sofrimento. Evolua e se torne uma pessoa melhor toda vez que perceber um erro que cometeu, uma participação sua na destruição dessa relação. Essa é a missão de todo ser humano! Esse é o segredo do amor.
E assim, amadurecido, mais consciente e preenchido de um amor-próprio que até então você não conhecia, você estará se preparando para o novo, para um recomeço com muito mais chances de dar certo! E, quem sabe, até para reconquistar, de fato (com atitudes e um novo jeito de amar) a pessoa que foi embora...

Realmente não é fácil, mas é absolutamente possível. Por isso, ao invés de massacrar o seu coração insistindo num amor que já acabou, cultive a sua auto-estima, veja-se como merecedor de um grande amor e abra-se para uma nova oportunidade de amar, mais preparada e mais você!
♥

Fonte: http://somostodosum.ig.com.br/

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Crônica

De onde vem a nossa dor
Martha Medeiros


A dor nas costas vem das costas, a dor de estômago vem do estômago, a dor de cabeça vem da cabeça. E sua dor existencial, vem de onde? 

Ela vem da história que você meio que viveu, meio que criou – é sabido que contamos para nós mesmos uma narrativa que nem sempre bate com os fatos. Nossa memória da infância está repleta de fantasias e leituras distorcidas da realidade. Mesmo assim, é a história que decidimos oficializar e passar adiante, e dela resultam muitas de nossas fraturas emocionais. 

Nossa dor existencial vem também do quanto levamos a sério o que dizem os outros, o que fazem os outros e o que pensam os outros – uma insanidade, pois quem é que realmente sabe o que pensam os outros? Pensamos no lugar deles e sofremos por esse pensamento imaginado. Nossa dor existencial vem dessa transferência descabida.

Nossa dor existencial, além disso, vem de modelos projetados como ideais, a saber: é melhor ser vegetariano do que comer carne, fazer faculdade de medicina do que hotelaria, namorar do que ficar sozinho, ter filhos do que não ter, e isso tudo vai gerando uma briga interna entre quem você é e entre quem gostariam que você fosse, a ponto de confundi-lo: existe mesmo uma lógica nas escolhas? 

Como se não bastasse, nossa dor existencial vem do que não é escolha, mas destino: quem é muito baixinho, ou tem cabelo muito crespo, ou é pobre de amargar, ou tem dificuldade de perder peso vai transformar isso em uma pergunta irrespondível – por que eu? – e a falta de resposta será uma cruz a ser carregada. 

Nossa dor existencial vem da quantidade de nãos que recebemos, esquecidos que somos de que o “não” é apenas isso, uma proposta negada, um beijo recusado, um adiamento dos nossos sonhos, uma conscientização das coisas como elas são, sem a obrigatoriedade de virarem traumas ou convites à desistência. 

Nossa dor existencial vem do bebê bem tratado que fomos, nada nos faltava, éramos amamentados, tínhamos as fraldas trocadas, ninavam nosso sono, até que um dia crescemos e o mundo nos comunicou: agora se vire, meu bem. Injustiça fazer isso com uma criança – alguém aí por acaso deixou totalmente de ser criança? 

Nossa dor existencial vem da incompreensão dos absurdos, da nossa revolta pelos menos favorecidos, da inveja pelos mais favorecidos, da raiva por não atenderem nossos chamados, por cada amanhecer cheio de promessas, pela precariedade das nossas melhores intenções e pela invisibilidade que nos outorgamos: por que nunca ninguém nos enxerga como realmente somos? 

Dor de dente vem do dente, dor no joelho vem do joelho, dor nas juntas vem das juntas. Nossa dor existencial vem da existência, que nenhum plano de saúde cobre, de tão difícil que é encontrar seu foco e sua cura.

Fonte: ZERO HORA - 24/11


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Texto de "Eu me chamo Antônio"



O amor parece ter nascido aqui nesse leito sereno para depois morrer confuso, ali, no seu peito ausente. Talvez nada lhe falte e até sobre verdade sobre a mesa do jantar que não jantamos ontem. Talvez até sobre um recado no bolso do paletó, que diz que a paixão é um pequeno pecado doido para ser perdoado. Eu perdoei loucamente todos os seus pecados: um por um, dores por dores, sentimentos por sentimentos. Talvez ainda reste um resto de eu te amo enrolado neste guardanapo que roubei do balcão do meu bar predileto… Na gaiola invisível ainda ouço a liberdade se prender ao canto do curió – meu pássaro favorito! Curiosos são aqueles que querem a verdade, o que eu quero é ver, rever, berrar: reverberar!

Ainda me lembro do dia em que dissemos: seremos felizes até que a poesia nos repare. Primeiro, você riu, eu gargalhei e nós casamos. Depois, eu li, você ouviu e, nus, transamos. Por fim, eu lembrei, você se esqueceu e nós cansamos. Hoje, ainda que me falte você, nunca me faltará poesia. Um poema é o próprio abandono descrito em versos, diversas vezes. É o poeta em estado onírico implorando em rimas, alexandrinos, decassílabos decadentes: “Volta para mim, palavra bonita. Volta!”. Seu mundo sempre foi confuso, uma mistura moderna de Garcia Márquez com qualquer pintura de Velásquez. Você só parece amar quem pisoteia nos seus sonhos, quem tapa os seus sorrisos com lágrimas, quem lhe abandona sem roupa, sem mundo, sem beijo. Veja só: As Meninas na corte do rei parecem cortejar o seu coração. Corta a cena: seu azar foi ter vivido Cem anos de Solidão em uma única relação. Talvez por isso nada lhe emocione mais: nem o piano que toca algumas notas de jazz, nem o coração em guerra que, no peito, hasteia uma bandeira de paz. Talvez por isso nada lhe interesse mais: nem as cartas nem as caras de amor. Todas elas são ridículas, já dizia o poeta, todas elas são partículas de sentimento que não insiste mais… Contudo ainda me pego algumas vezes tateando uma sombra incompreensível que fala e que fuma e que finge estar viva. Só finge! Uma sombra precisa de luz para ser viva. Um amor precisa de vida para reluzir. Eu preciso de ambos para existir.

Agora podemos ir, dobrar uma esquina qualquer, reconhecer que a vida tem seus tropeços, seus problemas e seus soluços. E soluços nada mais são do que palavras que morreram engasgadas na vontade de dizer. O tempo dirá, o remorso roerá, o cigarro apagará e eu tenho a mais absoluta certeza que outra beleza menos confusa e mais clara amanhecerá no meu mundo para me amar como eu não te amei.

E se você foi covarde, tudo bem… Todo mundo tem suas fraquezas. Nem todo mundo aguenta ser feliz. Eu também preciso de uma Trégua…

Fique com seus romances latinos;

Eu versifico com os meus poemas batidos:

O amor é bem mais do que isso…

[o amor é bem mais do que tudo isso; antônio]
(Por Pedro Gabriel)

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